MEMORIAL POETA PEZÃO

FRANCISCO ROBERTO DE LIMA MOROJÓ - ou o popular “POETA PEZÃO, Seu Criado” - nasceu dia 24 de outubro de 1959 em Patos das Espinharas/PB e morreu dia 07 de dezembro de 2003 indo para os Olhos D´Água de Alexânia no entorno de Brasília. Foi o primeiro poeta da Ceilândia e um dos pioneiros da “geração mimeógrafo” da literatura candanga dos anos 70. Anarquista convicto, se gabava em dizer que nunca teve e nem teria “patrão”, chegando a trabalhar de costureiro com a sua mãe para “viver só da poesia”. Como alfaiate, produzia suas próprias indumentárias, assim como das personagens teatrais que montava e ensinava. Foi também fundador e compositor e do “tailandense” Forró Paraibola - grupo responsável pelo seu célebre “sarau fúnebre”. Polêmico e irreverente, o poeta partiu desse mundo deixando amigos e inimigos, mas acima de tudo, a poesia.

Adeus ao Maiakoviski Candango

Poeta Caboclo

O Poeta Caboclo foi-se
Para além da liberdade
Levou o martelo e a foice
Montando o dorso da verdade

Apressado, ele esqueceu
De levar consigo a poesia
Deixou-nos o que escreveu
Ouro em versos e melodia

Pezão poeta que era
Também grande compositor
Amigo de sentimento
Na alegria e na dor
Valorizava imensamente
Os versos do cantador

Quando correu a notícia
Que o Pezão faleceu
Fiquei triste no momento
Lágrima dos olhos escorreu
Porque o poeta também
Era grande amigo meu

Geraldo Bazílio


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O POETA E O ALFAIATE
NECROLÓGIO NO CEMITÉRIO
DE SÃO FRANCISCO MOROJÓ

José Carlos Vieira


Conheci Francisco Morojó, o Pezão no final dos anos de 1970; freqüentávamos o agitado bar do Kareka. Os dois, sem dinheiro no bolso, unidos por uma mesa de bar. A corrida pela vida nos levou a rumos diferentes. Já no início da década de 80, encontrei-o em Olhos D’Água, onde os malucos beleza de Brasília se reuniam para trocar roupas e sapatos usados por artesanatos locais. Pezão fazia parte do Paraibola, “o Sex Pistols do forró candango”. Lançava seus primeiros livros de poesia mimeografados. Um repentista urbano, destemido como todo cangaceiro. Nos encontramos pela última vez em 2000 no lançamento do meu livro. “Você é o príncipe da poesia - repetia para todos os poetas - no que emendava: E eu sou o rei”.
Num final de semana de dezembro de 2003, Pezão pegou carona com amigos para ir à Feira de Trocas dos Olhos D’Água. No meio do caminho, duas garotas também pediam carona. Gentleman, saiu do carro e deu lugar para as “princesas”. Retornou à estrada com o dedão em pé. Os amigos e as meninas chegaram à cidade, mas o poeta não chegou. O carro em que viajava capotou: só ele morreu. No enterro, várias tribos reunidas, o forró comendo solto e as garrafas vazias de vinho e de cachaça espalhadas no chão. As pessoas das outras capelas não entendiam, todas embasbacadas, aos assistir o ritual daqueles anjos da noite. De repente, na hora do enterro, um pula dentro da cova; em desespero, pede para ser levado no lugar do amigo. Foi uma das mais belas e verdadeiras homenagens a um poeta.
Parafraseando Itamar Assunção quando na morte de Paulo Leminski - o músico enviou um fax ao poeta já morto - uso essa crônica para homenageá-lo: “Pezão, aqui é o Zé Carlos, não fui ao enterro seu porque você não irá ao meu”.

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NA PARADA CENTRAL
(depois de perder o último ônibus)

Ceilândia, você não me engana
te cruzo dia & noite sem muamba
choro a dor dos moribundos
morrendo na fila de teu hospital
rememorando teus trambiqueiros
traficantes mequetrefes de fundo-de-quintal.

Ceí, paradigma do mundo
toda quadra tem um artista (anônimo)
pense nos teus candangos
que nunca foram no plano... planejar
Teu (herói) não é Gregorinho
e sim teu povo morrendo
nos canteiros da construção CER-VIL.

Ceí, nunca te enrolei na Feira do Rolo
todo mundo fala que vai te limpar
tu sois um cristal de marfim lapidado
de poetas, cantadores & forrozeiros
a capital nordestina do Brazil
Tuas fábricas fantasmas
não fabricam mais boçais.

(O VOO DO PÁSSARO DE CHUMBO)
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VIVO NA MARGEM
(para alguns babacas que me chamam de poeta marginal)

Eu só espero
é o dia em que esse país
seja realmente democrático
e a juventude passe a ler e escrever
ao invés de se alienar
com as drogas marinhas da TV

E o trabalhador tenha na mesa
ao invés de conta de água
de luz, de esgoto e de lixo
(COMIDA)
sem ser obrigado a viver na sarjeta

Aí, vou convidar
sua netinha e sobrinha
sua mulherzinha e mãezinha
e por que não, sua vovozinha
para fazer um tremendo zulubabel
nas margens do paranoá.

(ANARQUISMO TAMBÉM É SOCIALISMO)

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PRETENSÃO

Não quero ser
o vigário de sua matriz
nem tão pouco
o operário de sua filial.

Quero ser apenas
uma banquinha de camelô
num ponto bem situado de sua alma,
onde eu possa vender
todos os sonhos...

(PARAÍSO DOS FRAGELADOS)

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BORBOLETA

Eu sou um misantrópico
e às vezes hermético
para os nacionalistas de direita
e detesto crianças por não nascerem
com o espírito de luta de CHE GUEVARA

Mas um dia uma borboleta
com a asa quebrada
baixou no meu circo
e eu lhe dei toda a assistência possível
comprei um rolo de durex
e colei na sua asa
deixei-a na cama de mamãe
e fui comprar flor prá ela

Hoje ela voa nas margens do paranoá
cheirando as flores de sua preferência
concubinando com quem ela quer
sobrevoando a ponte daquele ex-ditador
do lago sul ao lago norte
voa... borboleta... voa... voa...
voa os segredos do abismo infinito
mesmo sentindo que eu estou morrendo de saudade
adoro te ver nos ares, no ar.
(hoje em dia só me preocupo
com a felicidade dos hermanos
simplesmente porque já fui feliz).

(ANARQUISMO TAMBÉM É SOCIALISMO)

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PASSAGEIRO DAS ESTRELAS

A luz que acendeste aqui
Vulcão que não adormece mais
O que espantava em ti
Um lobo acordando a paz
O voo que tentaste dar
Trapézio foi curto demais.

Que mensagem tentaste passar
Si no riso de nosso olhar
Reflete o sinal da dor
Não foi tão natural
A espanhola despencou
E o pedaço da noite
Escureceu sem teu amor

O vento que enfeitava teus cabelos
Te iludiu, te fechou
Tu que enfeitavas a natureza
Aqui para nós, quem te ensinou?

Mumunhas, OLHOS D´ÁGUA, poço azul
O disco avoantes que tu eras
Poeta, lobo sentinela
Si escuta na floresta
A voz do rapaz
Ladeira de águas limpas
Pára-raio da nobreza
Sereno de teu olhar

Acendes nossas fogueiras
Quando formos acampar
Presença em todas as fontes
Brisa pra rememorar.

(A SERENATA DA ACAUÃ)

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